Cidades
Publicado em 26/05/2026, às 11h54 Reprodução/Getty Images Malu Machado
O Brasil alcançou em 2024 a sua menor taxa oficial de homicídios em 11 anos, registrando 20,1 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. Ao todo, o país contabilizou 42.590 assassinatos oficiais.
O recuo de 7,4% em relação ao ano anterior, contudo, esconde realidades profundamente desiguais entre os estados e um fenômeno que os pesquisadores chamam de "acomodação" no mercado do crime organizado.
Os dados detalhados por unidade federativa constam no Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
De acordo com o relatório, o Amapá lidera como o estado mais violento do país, ostentando uma taxa de 45,7 homicídios por 100 mil habitantes (mais que o dobro da média nacional). Na outra ponta, São Paulo registrou o índice mais seguro, com apenas 6,6 mortes por 100 mil pessoas, o equivalente a um terço da média do Brasil.
Ao todo, 18 das 27 unidades da federação operam com índices de violência acima do patamar nacional.
Veja mapa da violência em todo o país:
Segundo o economista Daniel Cerqueira, técnico do Ipea e coordenador do estudo, a queda histórica iniciada a partir de 2018 não reflete necessariamente a derrota do crime organizado, mas sim uma trégua comercial estratégica entre as principais organizações criminosas do país.
Entre 2016 e 2017, o Brasil viveu o ápice de uma guerra sangrenta pelo controle das rotas de escoamento de drogas no Norte e Nordeste, travada principalmente entre o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e seus aliados regionais.
"Uma guerra que se prolonga por muito tempo, sem um resultado claro, passa a ter custos econômicos inviáveis para as próprias facções", explica Daniel Cerqueira.
O pesquisador aponta que a estabilização das rotas internacionais de tráfico que desaguam nas capitais nordestinas reduziu os confrontos diretos por território. Somado a isso, fatores demográficos (como o envelhecimento da população) e melhorias na gestão de segurança pública locais ajudaram a desenhar o cenário atual de redução de perdas humanas.
Veja o ranking em cada estado:
Acre - 20,2 homicídios por 100 mil habitantes;
Alagoas - 35,9;
Amapá - 45,7;
Amazonas - 32,2;
Bahia - 40,9;
Ceará - 34,3;
Distrito Federal - 10,3;
Espírito Santo - 26;
Goiás - 18,4;
Maranhão - 31,1;
Mato Grosso - 29,1;
Mato Grosso do Sul - 18,3;
Minas Gerais - 12,8;
Pará - 27,4;
Paraíba - 25,7;
Paraná - 18,6;
Pernambuco - 37,3;
Piauí - 20,6;
Rio de Janeiro - 20,4;
Rio Grande do Norte - 23,5;
Rio Grande do Sul - 15,2;
Rondônia - 30,3;
Roraima - 27,8;
Santa Catarina - 8,1;
São Paulo - 6,6;
Sergipe - 23;
Tocantins - 19,8.
Realidade oculta
O comitê técnico do Atlas da Violência faz uma ressalva metodológica crucial: as estatísticas oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) podem estar maquiadas pela ineficiência do Estado em registrar óbitos. Houve um crescimento expressivo de Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) - casos em que a polícia ou o sistema de saúde não conseguem cravar a causa da morte.
Ao aplicar algoritmos matemáticos para calcular os chamados homicídios ocultos inseridos nessas gavetas burocráticas, os pesquisadores estimam que o cenário real do país é muito mais severo: