Cidades
Publicado em 26/12/2025, às 08h32 Reprodução internet Dani Oliveira
Um gesto de fraternidade inter-religiosa ganhou destaque nas redes sociais durante o Natal e reacendeu debates sobre liberdade religiosa e comunicação institucional da Igreja Católica.
O sheikh muçulmano Rodrigo Jalloul transmitiu ao vivo a missa celebrada pelo Padre Júlio Lancellotti, após o sacerdote ser impedido de realizar transmissões on-line por determinação da Arquidiocese de São Paulo.
A celebração foi exibida nas redes do líder islâmico na quinta-feira (25) e rapidamente repercutiu, após a divulgação da decisão do cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer, que vetou transmissões ao vivo feitas pelo padre.
Gesto foi definido como defesa da liberdade religiosa
Ao anunciar a transmissão, Rodrigo Jalloul publicou uma mensagem em tom de protesto contra a decisão:
Padre Júlio fica! Ninguém pode banir que a palavra de Deus seja propagada!”
Em entrevista, o sheikh afirmou respeitar a hierarquia da Igreja Católica, mas classificou o veto como uma forma de censura à mensagem religiosa.
Segundo ele, impedir a transmissão de uma missa, especialmente de uma figura com forte atuação social, não encontra justificativa razoável.
União entre religiões marcou a celebração
Rodrigo Jalloul destacou que não celebra o Natal e que a missa não faz parte dos ritos do islamismo, mas explicou que a iniciativa teve caráter simbólico e fraterno.
Para ele, o ato demonstra que líderes religiosos podem atuar juntos em defesa de valores comuns, como solidariedade, dignidade humana e justiça social.
O gesto foi interpretado por apoiadores como uma demonstração pública de diálogo inter-religioso em um momento de tensão institucional.
Ação social reuniu religiosos e pessoas em situação de rua
Após a missa, Rodrigo Jalloul e Padre Júlio promoveram um café da manhã para cerca de 400 pessoas em situação de rua, no Centro Comunitário Santa Dulce dos Pobres, localizado na Mooca, zona leste de São Paulo.
A iniciativa contou com doações arrecadadas pelos dois religiosos e reforçou o caráter social da parceria.
Padre Júlio suspende transmissões e atividades nas redes
Padre Júlio Lancellotti, que é pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, anunciou que não realizará mais transmissões on-line por tempo indeterminado e que irá reduzir sua atuação nas redes sociais, em um período que classificou como de recolhimento.
Ele coordena a Pastoral do Povo de Rua e é amplamente conhecido pelo trabalho com pessoas em situação de extrema vulnerabilidade e pelo combate à aporofobia, termo que define o preconceito contra pessoas pobres.
O que diz a Arquidiocese e o próprio padre
Sobre rumores de uma possível transferência de Lancellotti da paróquia, o sacerdote negou a informação e reafirmou sua permanência e obediência à Arquidiocese de São Paulo.
A Arquidiocese, questionada pela imprensa, informou que:
- Questões entre o arcebispo e um padre são tratadas internamente
- As decisões dizem respeito exclusivamente ao âmbito da Igreja
- Não há comentários públicos adicionais sobre o caso
Influência digital e embates recentes
Nas redes sociais, Padre Júlio soma mais de 2 milhões de seguidores. Até recentemente, ele costumava transmitir missas dominicais celebradas às 10h pelo YouTube, no canal da Rede TVT.
Ao longo dos últimos anos, o sacerdote também se tornou alvo de embates políticos, incluindo:
- Pedido de CPI apresentado por vereador para investigar seu trabalho social
- Críticas públicas de autoridades municipais
- Acusações associando sua atuação à presença de pessoas vulneráveis no centro da cidade
Apesar das controvérsias, Padre Júlio segue sendo uma das figuras religiosas mais conhecidas do país quando o tema é atuação social e defesa dos direitos humanos.