Cidades
Publicado em 07/08/2026, às 06h13 Reprodução/MME Lavínia Manso
O Rio Grande do Norte pode ganhar uma nova ferramenta para reduzir o desperdício de energia renovável com o primeiro leilão nacional para contratação de sistemas de armazenamento em baterias, previsto para dezembro. A tecnologia poderá armazenar excedentes produzidos por parques eólicos e solares, diminuir cortes de geração, dar mais estabilidade à rede elétrica e atrair novos investimentos para o Estado.
A disputa pelo novo mercado já mobiliza investidores. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) recebeu o cadastro de 6.091 projetos de armazenamento, que somam 296,8 gigawatts (GW) de potência. O Nordeste concentra 71,1% dessa capacidade, impulsionado pela expansão das fontes eólica e solar e pela necessidade de equilibrar a oferta e o consumo de eletricidade.
Os números ainda não representam a capacidade que será contratada. Os projetos passarão por análise técnica da Empresa de Pesquisa Energética antes da habilitação definitiva. Como o volume de propostas supera a demanda estimada para o primeiro certame, a expectativa é de forte concorrência entre os investidores.
No Rio Grande do Norte, um dos principais efeitos esperados é a redução do chamado curtailment, quando parques eólicos e solares precisam limitar a produção mesmo havendo condições para gerar energia. As restrições são determinadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) em situações de sobreoferta, limitações na transmissão ou necessidade de equilíbrio da rede.
Na prática, os empreendimentos podem ser obrigados a produzir abaixo da capacidade, provocando perdas financeiras e reduzindo o aproveitamento da infraestrutura instalada. Como o Estado possui grande concentração de parques renováveis, está entre os locais mais expostos a esse problema.
Os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) funcionam como reservatórios de eletricidade. O excedente produzido em períodos de forte geração pode ser armazenado e posteriormente devolvido à rede quando o consumo aumentar ou a produção diminuir.
Segundo Marcello Cabral, diretor de Novos Negócios da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), as baterias permitem guardar a eletricidade produzida durante períodos de vento forte, alta geração solar ou baixo consumo para utilizá-la quando a demanda estiver maior. Na avaliação dele, a tecnologia reduz desperdícios e aumenta a previsibilidade da geração renovável.
Os equipamentos também respondem rapidamente às oscilações da rede, auxiliando no controle de tensão e frequência e disponibilizando potência nos horários de pico. A característica ganha importância com o crescimento de fontes cuja produção depende das condições climáticas.
A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) destaca ainda que os sistemas podem reduzir a necessidade de transportar grandes volumes de eletricidade por longas distâncias. Instaladas em pontos estratégicos, as baterias podem diminuir perdas na transmissão e aliviar trechos sobrecarregados da rede.
Para Darlan Santos, presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), o armazenamento pode beneficiar tanto os geradores quanto o sistema elétrico. Segundo ele, os empreendedores poderão reduzir prejuízos causados pela energia desperdiçada e vender eletricidade em períodos de maior valor, enquanto o sistema tende a ganhar qualidade e estabilidade.
A tecnologia também pode mudar a estratégia comercial dos empreendimentos. Parte da energia poderá ser armazenada no momento da geração e vendida posteriormente, em períodos de maior demanda e valorização, conforme as regras dos contratos e do mercado.
A ABEEólica avalia que o Rio Grande do Norte reúne condições favoráveis para receber investimentos, devido à concentração de parques eólicos, à qualidade dos recursos naturais, à experiência das empresas, à mão de obra especializada e à cadeia de fornecedores já formada no setor.
O mercado solar amplia esse potencial. Segundo a Absolar, o Estado possui 8,88 gigawatts (GW) em projetos de geração centralizada fotovoltaica outorgados. Desse total, 2,11 gigawatts (GW) já estão em operação.
A contratação será dividida em dois leilões. O primeiro será destinado a equipamentos com conteúdo nacional, enquanto o segundo não terá exigência de nacionalização dos sistemas. Os dois terão como objetivo contratar disponibilidade de potência para atender ao Sistema Interligado Nacional a partir de 2028.
Com a combinação entre parques eólicos, usinas solares e baterias, o Rio Grande do Norte poderá aproveitar uma parcela maior da energia produzida ao longo do dia. A tecnologia pode transformar o excesso de geração, que hoje representa um problema para o setor, em oportunidade de investimento e de maior eficiência para o sistema elétrico.