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Publicado em 17/08/2026, às 08h21 Reprodução: Internet Redação
O Grupo Casas Bahia chegou a um dos momentos mais delicados de sua história recente. Com uma dívida de R$ 17,3 bilhões e oito trimestres consecutivos de prejuízo, a companhia decidiu recorrer novamente a um mecanismo de proteção judicial para tentar reorganizar as finanças e preservar sua operação.
O pedido de recuperação judicial foi apresentado na noite deste domingo (16), em São Paulo, e será analisado pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais.
A medida alcança dez empresas ligadas ao grupo e ocorre poucas semanas depois de a varejista revelar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026.
Apesar da dimensão da crise, a companhia afirma que não pretende interromper as atividades. A estratégia é utilizar a recuperação judicial como instrumento para renegociar compromissos, alongar prazos e reorganizar a estrutura financeira sem paralisar as vendas.
A maior parte do endividamento está concentrada em obrigações com credores que não possuem garantias. Essa parcela chega a R$ 16,4 bilhões.
O restante do passivo apresentado à Justiça inclui R$ 754 milhões em obrigações trabalhistas e outros R$ 154 milhões devidos a micro e pequenas empresas.
O processo envolve negócios que estão por trás de diferentes frentes do grupo, incluindo as operações das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, comércio eletrônico, fabricação de móveis pela Bartira e empresas responsáveis por atividades de logística e tecnologia.
A recuperação judicial deverá criar um ambiente para que a companhia negocie essas obrigações sob supervisão da Justiça, buscando condições que permitam reduzir a pressão sobre o caixa.
O tamanho do prejuízo ajuda a explicar a decisão
A situação financeira ganhou contornos ainda mais graves no segundo trimestre deste ano.
Entre abril e junho, a companhia contabilizou perda líquida de R$ 10,1 bilhões. Para comparação, o prejuízo registrado no mesmo período de 2025 havia sido de R$ 555 milhões.
Uma parcela expressiva desse resultado, porém, está relacionada a eventos extraordinários. Segundo a empresa, R$ 9,1 bilhões correspondem a efeitos não recorrentes, como baixas de ativos, revisões contratuais e medidas associadas à reestruturação.
Mesmo excluindo esses fatores, o cenário continua negativo. O prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões no trimestre.
O resultado levou o patrimônio líquido do grupo para R$ 8,1 bilhões negativos, sinal de que a companhia chegou a uma situação em que suas obrigações superam o valor de seus ativos.
Por que a empresa chegou a esse ponto?
A crise é resultado de uma combinação de fatores que pressionaram o modelo financeiro da varejista ao longo dos últimos anos.
O período prolongado de juros elevados está entre os principais elementos apontados pela companhia. Para uma empresa que depende de crédito para financiar estoques e operações de venda, o encarecimento do dinheiro tem impacto direto nas despesas financeiras e na capacidade de geração de caixa.
A restrição de crédito também dificultou a obtenção de novos recursos. Segundo a Casas Bahia, alternativas que estavam sendo negociadas para reforçar a estrutura financeira não chegaram a ser concluídas.
Ao mesmo tempo, a empresa precisou lidar com mudanças profundas no comportamento dos consumidores e com a transformação do mercado de varejo, especialmente após a aceleração do comércio eletrônico.
A aposta na transformação digital não resolveu o problema
A Casas Bahia passou por uma ampla transformação operacional a partir de 2019, com aumento dos investimentos em digitalização e mudanças na estratégia comercial.
O movimento começou antes da pandemia, quando o ambiente de juros era significativamente diferente do atual. Com a posterior elevação das taxas, o custo para financiar a operação aumentou e passou a representar uma pressão maior sobre uma empresa com elevado nível de endividamento.
A companhia precisou, então, combinar investimentos em tecnologia e canais digitais com medidas de redução de custos e adequação da estrutura física.
Quase 300 lojas foram fechadas, incluindo no RN
Uma das respostas adotadas nos últimos meses foi diminuir o tamanho da rede física.
Ao todo, 298 lojas foram fechadas, acompanhadas por uma reorganização do quadro de funcionários. A intenção foi concentrar a operação em unidades com maior potencial de rentabilidade e reduzir despesas.
O fechamento robusto incluiu as tradicionais lojas localizadas no Rio Grande do Norte, uma no Shopping do Midway Mall, outra na Avenida Roberto Freire e a terceira no Shopping Partage Norte Shopping, todas em Natal.
Com a ação, A Casas Bahia encerrou todas as atividades de suas lojas físicas em Natal e no estado do Rio Grande do Norte. As compras na região agora ocorrem apenas de forma online.
A nova estratégia dá, portanto, maior peso à geração de caixa e à margem das vendas digitais, numa tentativa de tornar a operação mais eficiente e menos dependente de capital para sustentar o crescimento.
Essas medidas, porém, não foram suficientes para impedir o agravamento da situação financeira, levando a companhia a buscar novamente proteção judicial.
É a segunda grande reestruturação em dois anos
A decisão deste domingo acontece apenas dois anos depois de a Casas Bahia recorrer à recuperação extrajudicial.
Em 2024, a empresa utilizou o mecanismo para renegociar bilhões de reais em dívidas com seus credores. O processo foi encerrado posteriormente, após a implementação das medidas previstas no acordo.
A nova recuperação judicial indica que a reestruturação anterior não conseguiu produzir uma solução duradoura para o nível de endividamento da companhia.
Agora, a negociação será conduzida dentro de um processo judicial mais amplo, envolvendo um conjunto maior de credores e empresas do grupo.
O que muda para clientes e funcionários?
A Casas Bahia afirma que o pedido não significa fechamento das lojas ou suspensão das atividades comerciais.
A intenção declarada é manter os canais de venda funcionando e preservar o atendimento aos consumidores enquanto a companhia busca uma solução para suas obrigações financeiras.
Para os funcionários, a empresa já vinha realizando ajustes no quadro como parte da reestruturação operacional. O pedido de recuperação judicial ocorre, portanto, depois de uma série de medidas de redução de custos e enxugamento da estrutura.
O que a Casas Bahia pretende com a recuperação judicial?
O principal objetivo é transformar uma dívida que hoje exerce forte pressão sobre o caixa em obrigações que possam ser pagas dentro de condições compatíveis com a capacidade financeira da empresa.
Entre as medidas buscadas estão o alongamento dos débitos, a renegociação com credores e uma reorganização da estrutura de capital.
A companhia também pretende obter proteção contra ações que possam comprometer recursos necessários para manter a operação durante o processo.
A recuperação judicial, portanto, não representa o fim das atividades da Casas Bahia. É uma tentativa de ganhar tempo e criar condições para que a empresa consiga atravessar a crise, reduzir o peso das dívidas e voltar a gerar caixa de maneira sustentável.