Cidades
Publicado em 26/05/2026, às 11h19 Rovena Rosa/Agência Brasil Malu Machado
Nesta terça-feira (26), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou os dados do Atlas da Violência 2026.
O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, o que representa uma taxa de 20,1 casos para cada 100 mil habitantes. O índice aponta uma redução de 7,4% na comparação com o ano anterior e consolida o menor patamar de letalidade desde 2014, início da série histórica.
Apesar do recuo nos indicadores oficiais, o estudo de uma década de monitoramento acende um alerta crítico: o avanço massivo da subnotificação e das falhas no registro de óbitos pelo Estado, que criam "pontos cegos" na segurança pública.
O levantamento revela que a aparente melhora nos indicadores deve ser analisada com cautela devido ao crescimento relevante das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI): ocorrências em que o Estado não consegue definir se o óbito foi causado por acidente, suicídio ou homicídio.
Especialistas alertam que a piora na qualidade dos dados de saúde e segurança compromete o planejamento e o monitoramento de políticas contra o crime organizado, camuflando a realidade de estados com polícias e perícias mais fragilizadas.
O estudo mostra que os assassinatos no Brasil se concentram em regiões específicas e são influenciados pela infraestrutura e pelo perfil da população:
Entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, 17 dos 20 municípios mais violentos do país estão no Nordeste. Em contrapartida, as 20 cidades mais seguras situam-se exclusivamente nas regiões Sul e Sudeste.
O Ipea aponta que o Norte e o Nordeste sofrem com a expansão violenta e conflitos de facções criminosas combinados a uma infraestrutura estatal mais precária. Além disso, a transição demográfica mais lenta mantém essas regiões com uma proporção maior de jovens - o principal grupo afetado pela letalidade.
O Sul e o Sudeste, por outro lado, contam com economias mais consolidadas e um envelhecimento populacional acelerado.
A juventude brasileira continua sendo o alvo central da violência mais severa do país. Em 11 anos (2014 a 2024), 301.825 jovens entre 15 e 29 anos foram assassinados no Brasil, o equivalente a uma média de 75 mortes por dia.
O estudo mapeou que a morte na juventude é antecedida por ciclos de abusos domésticos na infância. Os registros de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos cresceram mais de quatro vezes em uma década, saltando de 1.671 (2014) para 7.845 (2024).
Na faixa de 5 a 14 anos, as notificações subiram de 6.594 para 29.135. Cerca de 79,9% dos abusos contra bebês e crianças ocorrem dentro de casa, cometidos por familiares.
O relatório detalha como o preconceito e a vulnerabilidade social ditam os riscos de morte e agressão no país
Embora os homicídios gerais de mulheres tenham caído 27,7% entre 2014 e 2024, a redução ocorreu apenas nas ruas.
Os assassinatos de mulheres dentro de casa permaneceram estáticos (passando de 1,25 para 1,18 por 100 mil), provando a resistência dos índices de feminicídio. Mulheres negras enfrentam uma taxa de homicídios 66,7% superior à de não negras.
Em 2024, 32.820 pessoas negras foram assassinadas, mantendo a média de 89,9 mortes diárias. A taxa de homicídios de negros é 170,3% maior que a de não negros.
No país, um cidadão negro tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinado; em estados como Alagoas, esse risco chega a ser 23,3 vezes superior. Enquanto o homicídio de não negros despencou 38,9% em 11 anos, o de negros recuou apenas 21,7%.
O Ipea denuncia uma "invisibilidade institucional" por falta de registros adequados sobre a motivação dos crimes. Ainda assim, as notificações de violência na saúde aumentaram: contra homossexuais e bissexuais o crescimento foi de 5,5% em um ano (10.250 casos em 2024).
Em 11 anos, a alta acumulada de denúncias de agressões contra esse grupo foi de 212,7%, com destaque drástico para bissexuais (alta de 781%). Em 2024, 5.575 pessoas trans e travestis sofreram violência notificada.
A taxa de homicídios de indígenas alcançou 24,6 por 100 mil habitantes, número 22% maior que a média geral do país, impulsionada por disputas de terras.
No Amazonas, o número de indígenas assassinados dobrou em apenas um ano, saltando de 36 (2023) para 73 (2024) - alta de 123,4%. Na Bahia, o crescimento de conflitos fez os assassinatos subirem 84,6% no mesmo período.
A violência interpessoal contra idosos escalou impressionantes 226,3% em 11 anos, atingindo 30.097 notificações em 2024.
Já entre pessoas com deficiência, o principal gargalo é a violência sexual doméstica: o crime representa 44,9% das notificações entre mulheres com deficiência intelectual e 20,1% entre homens na mesma condição.